sábado, 12 de outubro de 2013

Criança na água - homenagem ao dia das crianças



Sempre fui a criança que não queria sair da água. A maravilha do mar todos os dias na férias ao longo do ano era rara. Se alguém me acenava com a mínima possibilidade de me levar à praia, mesmo que fosse apenas uma vez e só dali a um mês, meu coração já se enchia de alegria. Eu pensava nisso todos os dias. Frequentemente os adultos de esqueciam do que pra mim era promessa. Então, diante da cobrança, eles riam ou se enfureciam, dependendo de seu estado de espírito. 
Adultos mudam de humor e reagem de maneiras imprevisíveis para as crianças. Quando a gente cresce entende que isso tem a ver com questões financeiras, de saúde, de trabalho e etc..., fatores incompreensíveis para as crianças, a não ser que os adultos expliquem para elas (o que não era o caso).
Todas as vezes que os adultos destruíam as minhas esperanças eu envelhecia. Na minha cabecinha infantil, achava que se mudavam de ideia a culpa era minha. Por isso, passava horas criando estratégias infalíveis, o momento ideal e a palavra certa para que cumprissem com o prometido. Sem nunca deixar perceberam o quanto aquilo era importante para mim – pois isso poderia gerar eternas manipulações (“se você não fizer isso eu não te levo a praia”). Mesmo com tanto esforço, nem sempre tive sucesso.
Hoje eu comemorei o dia das crianças indo à praia sozinha de bicicleta. A gente deixa a bolsa com uma tia simpática e pode desfrutar do prazer infantil de brincar com as ondas durante horas. Até hoje eu sinto menos frio na água do que os outros adultos. É um máximo não ter que depender de ninguém para me levar a praia. Eu até preferia ter ido com algum amigo. Mas sempre quando combinam e não vão, eles reativam a minha frustração infantil e me deixam muito zangada. Por outro lado, já até me apaixonei por um garoto quando acordou cedo e me levou à uma praia diferente num dia comum. Até hoje me pego inventando estratégias sem sucesso para evitar que furem comigo. Mas são cariocas, saem de noite, ficam de ressaca, acordam tarde... Se até eu mesma nem sempre consigo fazer o que eu quero, não posso achar que o que o outro faz pode depender de alguma coisa que eu diga. Depois da infância que eu tive, pelo menos essa lição acho que aprendi.
Viajando com esses pensamentos na cabeça, quando eu já estava explorando todas as variações de rimas para “amor” e “mar”, passa perto um bebum tarado da porra cortando a minha onda infantil. A gente tem que se ligar. Quando eu era criança não tinha que me preocupar com nada disso. Tinha meu pai por perto para tomar conta de mim. Minha mãe frenética no protetor solar. Devia dar muito trabalho cuidar da criançada na praia! Hoje mulher sozinha, curti a delícia da independência na praia e senti saudade dos meus pais.


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Faces comuns



poema escrito para a ilustração de Luisa Condé, com uma gota de água poética manchando o desenho. 

Pelas paralelas dessa cidade
Disfarces

Se diz frases
/feitas/
Receitas per-
/feitas/

Face a objetividade das retas
regras
Em vias concretas

Sob a face
Curvas, fantasias, linhas de fuga
Sob a face
Fases, crises, necessidades

Na ansiedade [feminina]
Há de seguir a sina
-       Assina!
-       Assina!
Identidade perdida
O nome classifica

Mas se diz-
traída
Alucina de saída

Se despe-
de
Se depara
Se diz
para, pira, some
Dis-
para
ela
nóia
descobre
dentro da cabeça dela
mil cidades
cindidas de si
ligada de nós


E os disfarces
se desfazem
em inorgânicidades
faces comuns


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Luz dramática




De olhos abertos de frente para o sol
Vejo o azul e o amarelo na espuma do mar-
tela quebra
No espaço aberto faz menos estardalhaço
Relaxo

Me espera
O beijo quente na boca molhada
Tempera

Luz dramática
Ou será só eu?

domingo, 8 de setembro de 2013

Óbvio




Preciso urgentemente de mais paciência
Cala a boca que eu quero dialogar
Faço tudo por um pouco de amor próprio
[Será preciso realmente explicar o óbvio?]

Tem dia que tem tanta coisa para fazer
Que não dá tempo
de fazer nada
Quem sabe ainda entendo o porque
Tenho andado assim  
tão contrariada

Eu vejo email
pago conta,
tomo um café
e abro um livro.

No telefone
eu não me sento
no facebook um evento
Não sei porque
eu não me concentro!

Ninguém vai me impedir
de conviver em harmonia com meu os irmãos
Doa a quem doer, se for preciso eu brigo
A minha paz ainda consigo!        

Em troca disso, faço o que quiser
Pela  minha mais completa autonomia
E se mesmo assim não adiantar...
Ponho logo toda culpa na terapia!



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Lapa careta (o Estado tenta)

“Oh Arcos brancos de uma lapa colorida”
Felizpe Frutose 



O Estado tenta
Cobre a cal
Passa tinta 

O Estado do tenta
Manda o choque
Ordena e pinta 

Mas a mancha insiste
Matizes que a rua tinge 

O tempo picha
Arte cinza
No arco limpo
- Que dizem suja 

Lapa Careta
Branco no preto
O Estado tenta 

O Estado tenta
Mas esta sujeira me representa

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Páscoa de Orquestra




Domingo de Páscoa. O que é isso para quem não tem religiao? Deixei de lado coelho capitalista (que nem bota ovo, mas é de chocolate) e fui pra rua curtir um som. Uma ressurreição. Na praça da igreja, nada de missa. Comunhão de outro tipo.   Tambores, trombones e trompetes em  curiosa procissão. Desde o teatro Cacilda Becker marchou a trupe, interagindo com o público e fazendo a alegria de quem acolhe o inusitado. Palhaços alados tal qual anjos em orquestra voaram pelo Largo do Machado.  Extra extra: palhaço de trombone invade farmácia! Que cena sublime a dança do funcionário.   
Neste domingo, a banda que levanta multidões nos carnavais tocou como se fosse a primeira vez. E foi a primeira vez quem não é da área. Tomou o Largo, invadiu a praia. A Orquestra Voadora não precisa ser previamente apresentada. Tem presença de praça! Anos de experiência que pintam em cada gesto como se fosse novidade. Daí todo mundo agacha: no centro da roda dança uma senhora idosa. Depois chega uma criança. E todo mundo levanta e brinca brindando a vida na cidade que é nossa. Vibra o ato. Vira passeata. Pelo direito de ser índio e encher a cidade de aldeia. Ocupar de alegria viva. Não é esse lance da Páscoa, (para além de chocolate)? Resistir ao ser devastado e ainda fazer festa. Manifesto sem maestro. Glorioso domingo de Orquestra.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Brincos




Brilharam pela noite
Rodopiaram em pleno par
Mas foram esquecidos
Na espiral da rotina

Poderia ter sido
Boa desculpa, motivo
Mero desperdício

Os cúmplices do encontro
Perderam o ritmo
Pendurados
Por tempo indeterminado

Na gaveta
Aguardaram com ânsia
Pela próxima vez
Que não viria

[Quem ousa querer
Arrisca perder]

Até que um dia
O que fora relíquia
Virou evidência
A ser descartada
Como lágrimas
Ou como brincos jogados no lixo
Junto com qualquer expectativa


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