sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Banho surreal

Alunos do Turista Aprendiz na praia da Lua, em Manaus


Praia de rio
banho surreal
desafio de quem é
acostumado com o sal

Desconfio e faço prova
água na boca
comprovo
é quente e doce

o mel de Manaus

Batismo no Rio Negro




Noite escura no Rio Negro
nosso primeiro banho no leito
gole de leite
doce quente
curumins e cunhatãs
embalado por mãos de mães
no banzeiro.
Arrepio de brisa
milagre líquido
mãe d'água

primeiro beijo 
de Iara.

domingo, 19 de outubro de 2014

Sem sol




Ontem eu e uma multidão fomos à praia de Ipanema a espera de um dia semi-ensolarado, como o que fazia em nossos bairros mais ao norte. Mas, ao desembarcar na General Osório, gemia o povo em ais, reclamando sua sorte. Bem que o amigo zona sul tinha me avisado da nuvem que pairava sobre a praia... mas eu não escutei. Quem sempre morou longe do mar e o sente como coisa rara, é capaz de aproveitá-lo até mesmo em sábados nublados. Mas por aquele vento frio, eu não esperava. Então, irritada, engrossei o coro, repetindo mesma reação de cada ser humano suburbano que tinha vindo atrás e que viria adiante. Depois disso sorri sonoramente mostrando os dentes entre os semelhantes. Não há frustração que resista intacta ao ser compartilhada. Nós, que acreditamos no sol, nunca estamos sós. Não a falta de sol, mas a solidão é nosso único mal.

Acidente

A porta do metro prendeu o braço do moço. Ele, do lado de dentro, com o braço prensado ficou sem nenhuma expressão. Aos poucos, os passageiros foram percebendo assustados a situação. Alguém foi puxar uma alavanca para parar o carro, mas ele disse que não tinha necessidade, a outra estação estava perto. Uma senhora disse que antes dele chegar, ia ter o braço arrancado pelas ferragens, causando certo alarde. Dois cidadãos de bom senso finalmente tiveram a ideia de forçar a abertura da porta. O homem conseguiu retirar o braço com o trem em movimento. Agradeceu e se desculpou, visivelmente constrangido. Na hora, me lembrei da história de uma criança que passou uma viagem inteira com o dedo preso pela porta do carro segurando o choro porque não queria que seu pai visse. Porque mesmo tendo o sido o pai que havia fechado a porta, sabia que o velho ia dar um jeito de colocar a culpa nele. Me senti horrível com essa história e fiquei tentado lembrar que paciente havia me contato isso. Depois suspirei aliviada, não foi paciente, foi no livro do J.P Cuenca - "O único final feliz para uma história de amor é um acidente". Ainda bem que era só ficção. Mas diante do acidente de hoje, não poderia ser mais real.

Maçã com canela


Metade da laranja nada. Amor são dois pedaços de maçã em forma de coração que aparecem para você no seu café da manhã. Mas não basta testemunhar o milagre dos pedaços que se encontram por acaso. Nem sentir na boca a canela do seu adocicado. Precisa fazer foto e postar no face. O amor quer ser compartilhado.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

No ponto

Meu coração está parado no ponto esperando um ônibus para Niterói. Todo mundo diz que passa, mas 40 minutos e nada. Solidários, os solitários vão dando informações. E por mais que acreditem nelas, nunca sabem ao certo se vale a pena esperar. Meu coração é tão absurdo como um ônibus escrito "barcas" que não passa pelas barcas porque a Perimetral foi derrubada. Aí você tem que andar até depois do ponto final e alterar o cronograma sem drama, pois nessa cidade, nessa idade... Tudo isso é normal. Meu coração não tem condições de cumprir com o combinado, vai decepcionar os outros corações. Por isso, se lança no oceano e desfruta o balanço inseguro do mar. Sorver cada naco de beleza que se insinua da janela, ignorando a espera e sabendo que não há salva-vidas para o amor. Meu coração se salva lendo Carlos Meijueiro do celular, escreve poema e reinventa sentido para o tempo perdido no trânsito.

A musa da solidão

Como sentia frio no filme europeu, a musa do cinema se descolou da tela. Resolveu dar um rolê pelo Festival do Rio. Achou que causaria espanto, mas os homens nem reparam. Estão muito concentrados em seus telefones celulares, repletos de whatsapps, após a sessão. Quanta ingenuidade! Ela acreditara que aqueles os olhares eram todos para ela. Que os moços bonitos desejavam tê-la. Só que não. Eles preferem a tela. O único capaz de nota-la foi o velho, da era pré-tinder, ainda do tempo da paquera. Ele pisca e anuncia saber-se velho, "não pretendo assedia-la". Assinando sua sentença: "mala". A doce personagem, solitária, aceita solenemente sua companhia. De repente, todos os olhares se voltam novamente para ela. Só agora compreende: eles têm medo. Mulheres sozinhas, sobretudo belas, são um perigo. Convém evita-las. O velho insiste por seu telefone. Ela responde com ternura: "preferiria não". E retorna para sua tela, repleta de humanidade, a musa da solidão.

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