segunda-feira, 5 de julho de 2010

Convite de sorvete

Brincar com os sentidos
da cor e do verbo
do ver e do verso
É meu quem versa comigo.

Amigo não joga
Conversa  fora
Só fia a lado
o que há dentro
De tempo a tempo

Sorver a vida
só vir e ver
abrindo-se
Não trava a língua!

Fruir o sendo
Limar o senso
Cindir a senda
do si.

Doce viver a sorte
o ver de que dissolve
convite de sorvete!

A sim

A cidade se me abre
Da janela
Enquanto a sinto
Sim ao vento
Do 485.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Falar de mulher

Aos ratos!

Epígrafe:
http://www.youtube.com/watch?v=YiVzLyDL3Xs


Uma rosa é uma rosa é uma rosa.
Uma mulher é uma mulher é uma mulher.

Mas melhor que uma mulher
Só dez mulher
Só dez mulher
Melhor que dez mulher
Só mil mulher
Só mil mulher

Mulher, mulher, mulher
Mulher, mulher, mulher
Mulher, mulher, mulher
Mulher, mulher, mulher
Mulher, mulher, mulher

Falar de mulher
Mas que mulher é essa?

Mulher melancia,
Mulher jaca,
Mulher melão?

Mulher manga!
hummm... gostosa.

Já me disseram na rua.
“Se fosse uma manga eu descascava e chupava todinha.”

E ficava o bagaço. Largado no chão.
Eu bagaço. Um caroço enorme.
Ninguém vai engolir...
E os fiapos.
Eu sou o fiapo que fica no dente.
A coisa melada que gruda nos dedos.
Eu sou...
Doce, como manga.

É que vocês não me conhecem, mas eu como a maior parte das mulheres do anos 20.000, trabalho. Tenho que carregar peso igual aos homens, bolsa de supermercado e abrir tampa de produtos conservados. Aqueles sabe? De palmito, de extrato de tomate... Ou pelo menos gosto que me deixem tentar... O fato é que, de manhã quando eu tenho que acordar cedo, pode ser que meu humor esteja bem azedo. E se no caminho topo com um engraçadinho que me confundiu com uma manga, lanço logo um comentário bem ácido. E nesse calor, quando volto prá casa já suada, pode ter certeza que eu vou estar salgada. Mas se me deparo com um bom amante... Pode crer que meu sabor vai ser picante! E se por algum motivo me larga... de certo que me deixa bem amarga.

Mas essa mulher que é só açúcar no mel
Que parece que caiu do céu
A mulher da poesia, que sempre rima
No salto alto tá sempre pro cima
No Outdoor ou na revista...
Atriz, modelo ou bailarina...

Mulher moderna que malha, trabalha, cuida dos filhos, sabe fazer creme broulé e ainda conhece três técnicas diferentes de sexo oral prá enloquecer o marido depois das bodas de prata.

Essa mulher não tá mapa!
Mas eu sei que ela tá aí.
Nessa tal subjetividade...
E nos persegue e é buscada.
É a tal mulher idealizada.

É dessa mulher que tanto falam.
E como fala essa mulher!
Sempre a nos dizer como devemos ser.
A fala dela cala nossa voz.

E freqüentemente ela fala de amor.
Como dizer eu te amo para a mulher do contemporâneo?
Amor ainda é o nosso ponto fraco.

Aí você dizer que me ama.
Que eu sou doce, açúcar no mel coisa e tal...
Eu vou gostar, vou apaixonar, vai dar romance, poesia...
E logo logo, você vai ver que eu não sou só essa doçura toda.
Vou implicar com os teus vício, vou dizer que vc não pensa no futuro, não junta dinheiro, e que se continuar desse jeito vai ficar brocha aos quarenta. Aí você vai ver que eu penso em casamento. E penso. E você vai dizer que Amélia que era mulher de verdade. E eu vou achar que errei. Mas isso faz parte de ser mulher. Pensar em quem vai ser o pai dos filhos que se pretende ter ou resolver sustentar a decisão de não tê-los. Uma puta responsabilidade!!! Dá até vontade de mandar a tudo prá puta que pariu e virar cachorra. Sair latindo a vontade!

Sabe como é:

“Sou cachorra sou gatinha não adiante se esquivar
Eu vou soltar a minha fera eu boto o bicho prá pegar!“

Ou então outro bichos,

“Vou pro baile sem calcinha
Agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar
Daquele jeito!”

Mais isso é um absurdo, uma vegonha! Uma completa degradação do gênero feminino. Afinal de contas todo mundo sabe que a natureza feminina é o amor, que mulher tem drama na veias e que toda mulher deseja mesmo que inconscientemente se casar - diz a dama-moral-intelectual-contemporânea - que adora falar mal de uma puta-pobre-burra para se diferenciar.

E não é isso que rica fauna do funk carioca?
Sai a “princesinha” entra a cachorra da periferia.
Uma forma me contrariar...
Entre o pudor e a pornografia
Entre o romance e a putaria.

"Se quer romance compra um livro
Ou entao vai no cinema
O negócio é putaria
Sexo resolve problema

Se tu quer comprar um livro
Então vê se me escuta:
Melhor livro de romance
Pra mim é o Kama-Sutra

Príncipe encantado
Já é coisa do passado
Se o jantar é à luz de velas
O meu prato é frango assado"

Porque vocês sabem né?
Tá todo mundo preparado para um homem aproveitador, lobo mau e don Juan... Tá cheio por aí. Mas prá pras preparadas nunca se está preparado! E quanta mulher por aí já não teve o homem que quis só porque ele se sentiu na obrigação de comer? Vai dizer que não quer? Não vai dizer.

O fato é que a liberdade da mulher é também a liberdade do homem de ter que ser “o Homem” para aquela “Mulher”.

Então nem feminista, nem cachorra, nem dama, nem macho, nem nada.
Contrariar sim, mas sem contrários
O contrário do contrário é a mesma porcaria.
E no final das contas saber que:

Uma mulher é uma mulher é uma mulher
Uma mulher não é uma manga
Uma mulher não é um peito

A mulher não é o leite
Ainda que doce deleite
A moça no seu leito
Quer dar, não só o peito
Mas tudo que tem direito

Repito:
A mulher não é o peito
Respeito!

Para amar mulher de hoje em dia ainda tem jeito
É querer ela toda, e não precisa nem falar (eu te amo, nada disso)
Bastar ser para ela mais que homem com “H”,
É que homem, a gente sabe, também tem peito para dar!

E haja peito!

Lá vai a Traça

Aos amigos livreiros!

Lá vai a traça
Que devora e acha graça
Não vem com o teu laço
Que ela te traça com o teu traço

Lá vai a traça
Da filosofia fez fumaça
Até Platão já foi vítima da traça

Que a risca e abraça
É travessa noite e dia
Ela trança e faz piada
Do saber da academia

E também a boemia
Que traça a até o caroço
E nessa transa não tem fossa
A quem interessar possa

Lá vai a traça
A fazer troça
No meio da praça
No meio da rua
Pra toda gente que tem raça
E não tem preço

Pode vir que é de graça
Que traça a traça
A você e a toda massa
Que passa na fumaça
Traçada pela traça

sábado, 29 de maio de 2010

Relógio


Tic tac tic tac
(sinal de sonho só)

Eu tenho um relógio no peito
que não desperta
da vida lânguida

Dá tempo de tomar um chá
ou um cogumelo amarelo?
- não dá

Correr atrás do tempo
Relógio de lógica
pressa de amar
e coisa prá fazer
- nem tudo é maravilha

relógio que corre
o alvo do coelho
brancura do cabelo

Alice sem hora
vai virar senhora
bem depois de agora

progressão aritimética
o que vai ser quando crescer?
dou lhe uma
dou lhe duas
dou lhe 23!

Dou a volta na hora
E corda prá poesia
acordada demora

o país das maravilhas
não desperta do sonho lento
sonolenta alice
corre atrás do tempo

a perder de vista
o sonho sem fim
a vida sonha de mim

que seria
que seria...

tic tac tic tac

Volta Alice!
(para o mundo da gente)

domingo, 23 de maio de 2010

Poesia pichação

Big brother. Blog. Escova progressiva. Orkut. Auto-ajuda. Filhos. Dieta. Facebook. Desejo de ser reconhecido. Piercing colorido. Casamento. Cirurgia plástica. Tatuagem. Zoar o coleguinha. Pegar geral. Mestrado. Drogas. Religião. Doutorado. O grupo. Palco. Maquiagem. Instrumento musical. Escrever um livro. Promoção. Perfume importado.
Ser visto. Servir. Ser quisto. Ser seguido.

Twiteeeeeeer!

Há de se envergonhar de tudo isso?
Que sim... Mas vergonha, essa é luxo de incluídos.

A moça pensa: todo mundo diz que eu tenho sorte de ser bonita, rica e inteligente. Eu queria ser feia, pobre e burra para que gostassem de mim só por eu ser gente. Que não olhassem para mim pelo meu valor de uso. Por isso a navalha.

Poesia cicatriz. Aos cortes na pele.

//

Que me batam na cara. Que aí saibam que eu existo. Ser visto. Reconhecido. Ter valor. Se é assim serei mau. Vou escrever meu nome na cidade. Essa cidade é minha. Serei seu rei. ESCREVE-REI meu nome no concreto da cidade com uma letra só minha todos saberão que eu tenho valor. Escreverei no mais alto do alto edifício.

Poesia pichação. Só que não tão alto.

_________________________________________________________

- A moça do texto é uma referencia a “A mulher mais linda da cidade” do Bukowski. Que é um conto visceral!
- Botaram aqueles tapa favela na linha vermelha. Ainda bem que já picharam.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Confluxo

Que não se pesca
Nem se dissolve
Nada comigo
Fora da rede

Que movimenta o mundo
Meneio do mar todo segundo

Uma estrela se move
Algo se ouriça
Desperta um peixe
O mar se agita
Um cardume pega corrente
Mergulhão caça
Assim se cria uma onda no mar

Do impossível se faz o movimento
Em cadência

Pesca que me resta
Nado sincronizado
Que me fixo
No fio transparente de querer negociado
Querido, por um fio
Que me fio, arrematado
E te laço, apertado!

Fio de mel
Fio da navalha
Fica o movimento
No fluxo
Não há como pegar
Não se pesca

O que se perde no mar
Se sente em corrente
E lava, consistência
E leva, na paciência

O que teço agora
Arraia peixe alado
Nado a lado.
Não arreio. Rendo.
Rindo...

Me leva, vôo!
Se onda lá, noutra hora
Se há que perder prá se nadar
O que se ganha aqui perde um peixe no mar

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